Modorra Burlesca

(…) Na realidade cultivava o hábito não por vaidade, mas porque descobrira no espelho um meio de autoduplicação. Fitava-se até haver dois seres enfrentando um ao outro, nenhum dos quais poderia afirmar ser o verdadeiro. Dava a impressão de estar desencarnado. Já não era algo exato como uma pessoa. Tinha a vertiginosa sensação de separar-se infinitamente de si mesmo. E mergulhava tão fundo no processo que se tornava incapaz de emergir, embora tivesse a mente lúcida. Precisava de um estímulo externo, um barulho forte, ou mudança de luz vinda através da janela para captar-lhe a atenção e reintegrá-lo.
E seu pai, o homem vigoroso e cheio de autoconfiança, que voltara encaveirado, curvado e barbado? E seu tio, vertendo cabelos e lassidão? No sopé da colina da Broadview Avenue, certo dia, os cidadãos eminentes da cidade inauguraram a estátua de bronze de um velho governador holandês, homem de fisionomia feroz, chapéu de copa quadrada, capa, calças bufantes e sapatos de fivela. A família compareceu à cerimônia. Havia outras estátuas nos parques da cidade e o menino conhecia-as todas. Acreditava que era um meio de transformação dos seres humanos e, em certos casos, de cavalos. Contudo, nem mesmo as estátuas permaneciam as mesmas. Assumiam diferentes coloridos ou perdiam fragmentos de si mesmas.
Era evidente que o mundo se compunha e recompunha sem parar, num infindável processo de insatisfação.
-DOCTOROW, Edgar L. Ragtime